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 A crítica como prolegómeno de construção

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AutorMensagem
Luís Gonçalves



Mensagens : 3
Data de inscrição : 11/08/2007

MensagemAssunto: A crítica como prolegómeno de construção   21/10/2007, 6:50 am

A crítica como prolegómeno de construção



(Pensei em partilhar este trabalho pessoal com todo o blog, em virtude de julgar que se este principio, o da critica, não for bem entendido e recebido por aqueles que as lêem, todo o objectivo deste Blog se torna mais pobre e infrutífero. Por isso se tiverem um pouco de ‘paxorra’ leiam-no ou pelo menos leiam o Resumo e a conclusão :) (Baseio-me em Kant, Foucout, Maurice Ponty, etc… )

Resumo:
Pretende-se explorar, grosso modo, que a crítica é uma atitude de diálogo e conhecimento, ou seja, de avaliação construtiva. Desta forma, a critica não existe em si, ou seja, ela só existe enquanto realidade de correlação fenomenológica. Não obstante, a critica aprece-nos contextualizada num trama valorativo —critico para construir e não construo para criticar— a critica é sempre um acto que leva ao conhecimento construtivo.


Etimologicamente, a palavra crítica provém do vocábulo grego Kriticós “que julga” assim como do vocábulo Krinum “arte de julgar a bondade, a verdade e a beleza das coisas”. Assim entendida, a critica é um trabalho de diálogo intersubjectivo e que implica um saber critico e adquirido. Em termos gerais, a critica é uma função hermenêutica sobre determinado tema e que, por sua vez, alude a problemas artísticos e culturais, sociais, etc. Desta feita, a crítica tem um carácter informativo de uma ou mais perspectivas e, sobretudo, de avaliação.

Desta feita, deveremos estar perante uma valorização objectiva e que, por sua vez, o subjectivo é depurado em prol de uma verdade analítica. Por exemplo, a critica jornalística circunscreve-se nestes moldes —o objectivo é o substracto da sustentação de argumentos.

Alguns intelectuais vincam também a ideia de que o vocábulo crítica deverá ser de exclusividade cientifica porque diz respeito a um dialogo intersubjectivo —todo o trabalho cientifico passa pelo crivo da critica quando se avança no conhecimento e na criatividade*1. Para além de esta noção, outros casos haverá em que a crítica está povoado de sedimentos empíricos ou subjectivos sem que o seu estatuto seja posto em causa. Na verdade, uma certa maneira de pensar e agir com o mundo (cultura/outro) é, grosso modo, uma atitude critica.

O que é fundamental sublinhar é que a critica não existe em si, esta só é entendida enquanto instrumento ou meio para chegar à verdade —construção hermenêutica.

A critica em si não é um juízo (maniqueista), esta só existe enquanto mediação, ou melhor, tem uma função subordinada em relação ao seu constituinte. Se a critica não existe como realidade, mas somente como atitude, esta tem que ser vista à luz dos valores. Estamos a referirmo-nos à critica como afirmação valorativa. Porém, enquanto afirmação a atitude critica encerra em si utilidade —o afastamento do erro em prol do valor mutável. Neste aspecto e, em geral, o acto de critica é um imperativo de construção.

É do entendimento generalizado que a critica poderá facilmente cair nas águas turvas do descobrimento dos erros de outrém. O que é necessário entender é que entender é a critica reclama um tipo de respostas especificas e não generalizadas, como é tão próprio do senso comum, criticar não é um juízo, mas uma prática. Ou melhor, a critica não é qualquer tipo de suspensão de juízo, é antes uma proposta de uma pratica ética — Foucault chama a esta operação uma virtude.
Efectivamente, nos limites do campo epistemológico o acto de critica aparece como uma um risco do pré-estabelecido, ou seja, habitualmente a virtude é entendida como um atributo pratico do sujeito e, por conseguinte, criticar é isso mesmo. Na verdade, a virtude não é somente uma maneira ou uma via de cumprir as normas, é sim uma relação critica com essas mesmas normas e que com a moral vigente.
Como afirmado, todo o tipo de critica envolve questões éticas, morais e deontológicas. Assim entendida, a critica deverá ser vista como um exame minucioso de uma dada realidade analizada —apontam-se os pontos fortes e os fracos— daí que a critica nunca poderá permanecer como algo destrutivo.

Não obstante, a critica é sempre vista como critica de alguma pratica, discurso ou mesmo instituição e, como já afirmado, perde o seu carácter no momento em que opera, dito de outro modo, a critica é uma prática puramente “isolada” onde os valores éticos são o seu verdadeiro meio operante.
Efectivamente, o perigo reside no facto de a critica se tornar numa acção mecânica, puramente lógico-formal e de decisão —cultural, social, pessoal, etc. Neste caso não estamos perante um acto de critica, mas perante um acto mecânico que proclama a sabedoria absoluta do objecto— este simples facto leva à elaboração de uma colecção de ideias já estabelecidas e a pseudo categorias —ao mau dizer, por excelência.
Escusado será dizer que para que a critica opere como uma pratica material é indispensável que captemos as categorias e ordenamento do campo do conhecimento. Criticar é, antes do mais, agrupar o particular em torno das categorias gerais do conhecimento. Dito de outro modo, criticar é pensar o problema da liberdade, da ética em geral, para além de qualquer juízo de valor —o pensamento critico constitui um esforço epistemologico e intersubjectivo.
A critica ganha, assim, um estatuto muito nobre de construção de conhecimento, ou seja, a ciência só se desenvolve por causa da crítica através de vários segmentos do mundo da criação, e da inovação, que fazem parte dos avanços que o mundo intelectual tem dado —a crítica é uma contestação consciente dos fatos que estão sendo desenvolvidos. Porém, sem tal experiência e oposição, não se consegue enxergar os erros que facilmente se cometem. As coisas só avançam com as críticas que são os fundamentos necessários e suficientes do mundo científico.
A critica sem o outro não é critica é, antes um monologo niilista. Na verdade, a critica aparece-nos sempre como um instrumento para alcançar a verdade, ainda que a critica não seja uma arquitetónica de conhecimento. Dito de outro modo, a critica é uma perspectiva sobre as formas de conhecimento já estabelecidas e ordenadas, não obstante não assimiladas, por isso eu critico.
Assim, uma das primeiras tarefas da critica enquanto tal é fundamentar a correlação entre os conteúdos do conhecimento (cientifico), neste sentido, enfrentamos a critica como um limite do que se pode saber. Queremos sublinhar que esta limitação da critica é uma forma de sabedoria e que, por sua vez, toca nas portas de uma pertença Ontologia.
Explicando, nada na critica poderá figurar como um elemento de saber em si, tal como o discurso cientifico não o é (este está em constante mutação, as verdades de hoje são sedimentos do amanhã). Esta forma de encarar a critica tem um sentido kantiano, na medida em que subjaze a pergunta, o que posso saber? Assim entendida a critica, na sua limitação ontológica, a nossa liberdade poderá estar em jogo, ou seja a liberdade surge nos limites do que poderemos saber.
Poderemos, se assim o pretendêssemos, rever a critica para além das suas limitações, estamos a referirmo-nos à virtude enquanto realidade metafísica. Ou melhor, homem enquanto ser pensante é detentor de inteligência e dotado de categorias para questionar todos os problemas existentes e, por sua vez, a critica da razão prática é uma limitação solucionada pela axiomática. Ou seja, o ser humano deve ser critico por natureza e, por tal, o cogito ergo sum é uma espécie de liberdade de pensar do Homem que começa quando se utiliza Bem o principio da critica.
Assim vista, o acto de criticar trespassa os domínios de qualquer tipo de juízo pejorativo comum*2 , ou melhor, estamos perante um acto de “humildade” e de reconhecimento nos nossos limites de conhecimento. Diremos, então, criticar é uma arte de reflexão. Neste sentido, a critica não consiste num acto singular, o outro, enquanto ser-no-mundo, faz parte desta procura de verdade. Ou seja, eu critico de uma forma objectiva sem interferir na liberdade do outro, ademais, eu só critico porque existe outrém.

Em forma de conclusão,
Com esta pequena investigação queremos sublinhar que a critica é ou deveria ser alheia a qualquer acto de maleficência. Ao invés, a critica deverá ser repensada como a arte de julgar a bondade e a verdade. Para tal, o método apontado deve primar pelo caracter informativo e avaliativo, sempre perspectivado.
Ao contrario do que se possa pensar, a critica não é um juízo a priori, desta forma, está para além do bem e do mal, a critica só é entendida como uma ferramenta de mediação para alcançar a verdade. Por conseguinte, estamos a referirmo-nos à critica como uma virtude. Abolimos, então qualquer tipo de raciocínio mecânico de decisão no acto de critica.
A contrariar tal facto, a critica no seu estatuto mais nobre ganha uma preponderância ontológica, onde o respeito, a humildade são os principais denominadores a considerar – o homem na sua finitude só é detentor de uma critica finita. Estamos, assim, perante a critica como uma virtude e liberdade de autodeterminação –critico porque sou um ser pensante e respeito o outro, enquanto outro eu.

Por isso critiquem!!!

Ass. Luís Gonçalves

* * * * *

*1 Alguns fundamentalistas afirmam que as críticas acontecem somente no mundo científico, tendo em vista o grau de consciência existente, no meio da intelectualidade que sabe, que precisa verificar a coerência de seu trabalho, e os progressos conseguidos com a sua arte de escrever.

*2 Não se deverá confundir a critica com um qualquer acto intencional de má compreensão da vida – inveja, ciúmes ou outros tramas sociais afins.
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MensagemAssunto: Re: A crítica como prolegómeno de construção   27/10/2007, 7:55 pm

Amigo Luís.

Antes de mais, parabéns pelo trabalho.

Estás feito num filósofo. Não vou tecer críticas ao teu trabalho, não me compete tal coisa, mas vejo que estudaste bem a matéria da crítica.

Saber aceitar a crítica como forma de crescimento é uma atitude elevada que nem sempre pauta as gentes da nossa terra.

Parabéns mais uma vez pelo texto e...

Venham mais assim...


Abraço
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